
Enquanto muitas bandas passam a vida tentando caçar (literalmente!) gravações piratas de seus shows, o Dream Theater resolveu fazer diferente: abriu os próprios arquivos, poliu o áudio e colocou à venda aquilo que antes só circulava de forma clandestina. O resultado? Uma coleção de bootlegs oficiais que se tornaram parte fundamental da história do grupo — e que convive lado a lado com gravações não oficiais igualmente fascinantes.
O que são bootlegs?
No universo musical, bootleg é qualquer gravação não oficial de um show, ensaio ou sessão de estúdio. Normalmente feita por fãs ou “vazada” por algúem da própria banda. Às vezes é captada direto da mesa de som ou transmitida por rádio/TV, essa prática construiu um acervo paralelo da trajetória de diversas bandas, ajudando a aumentar a popularidade e atraindo ouvintes e curiosos.
No caso do Dream Theater, no entanto, foi decidido por não somente reconhecer essa cultura, como também participar dela. Uma série de registros foram lançados oficialmente.
YtseJam Records: o selo que abriu o cofre da banda
Em 2003, a banda lançou o selo YtseJam Records, dedicado exclusivamente a disponibilizar raridades. Dividido em três séries — Live Series (shows completos), Demo Series (demos e versões iniciais) e Studio Series (sessões de estúdio e gravações especiais) — o projeto trouxe ao público registros que antes só existiam em cópias obscuras.
Seguem alguns exemplos:
Majesty Demos (1985-1986) – Onde tudo começou; gravações da primeira demo com o primeiro vocalista, Chris Collins.
When Dream and Day Unite Demos (1987–1989) – Gravações pré-primeiro álbum, com letras diferentes e um Dream Theater em formação, contendo Charlie Dominici no vocal.
Live in NYC 1993 – Captura a energia de uma banda em ascensão logo após o sucesso de Images and Words. Destaque para a versão demo de “A Change of Seasons”, executada apenas 4 vezes ao vivo pela banda.
Live in Barcelona 2002 – Show histórico realizado no dia 19.02.2002, onde a banda tocou Master of Puppets do Metallica na íntegra (oficialmente, também foram lançados “The Number of the Beast”, “Dark Side of the Moon” e “Made in Japan”).
The Making Of Scenes From A Memory – CD duplo contendo uma mixagem alternativa do clássico álbum da banda, além de sobras e arranjos demo contidos no outro disco.
Lost Not Forgotten Archives: Continuando os trabalhos!
Em 2021, o selo Lost Not Forgotten Archives foi lançado, dando continuidade ao trabalho iniciado pelo selo anterior. Após a saída de Portnoy da banda, houve um hiato relacionado aos novos lançamentos de bootlegs oficiais. Há quem diga que James Labrie assumiu a frente deste novo selo, mas não posso confirmar.
Este selo remasteriza alguns lançamentos anteriores e traz novos registros, tais como os exemplos abaixo:
Madison Square Garden 2010 – Show de apoio à turnê Final Frontier, do Iron Maiden. Performance curta, porém histórica. Um dos últimos registros de MP antes de sair da banda em 2010.
Live in Berlin 2019 – Na minha opinião, um dos registros com maior qualidade de áudio dos lançamentos ao vivo. Este é o show no Tempodrom, em Berlin, na “Distance Over Time Tour”.
O lado não oficial: Falando de bootlegs.
Mesmo com os lançamentos oficiais, os bootlegs não autorizados continuam sendo um território cheio de surpresas, pois trazem o som da banda em sua total originalidade, sem overdubs de estúdio, e sem artifícios para melhorar o som. Na minha opinião, tratam-se de peças muito interessantes, pois geralmente registram detalhes curiosos, momementos únicos ou músicas que foram executadas apenas em uma noite específica.
Alguns exemplos que devem ser citados:
Registros da era pré-Majesty (1986) – Versões ao vivo com Chris Collins no vocal, cantando as músicas do Majesty demos, além de uma versão de “Afterlife” com letra alternativa.
Os shows de Natal da turnê de 1998 – Contendo setlist variado, explorando os B-Sides da banda:
Shows da turnê “Scenes From a Memory” (2000) – Destaque para o registro abaixo, um show em Glasgow, onde a banda “abandonou” parte do setlist para se divertir no palco. Apenas escutem isto!
Huntington 2012 – Com a participação especial de Tony Levin (LTE) e a presença de Paradigm Shift no setlist (com Mangini na bateria!).
Voltando aos registros, muitas dessas gravações revelam detalhes que jamais seriam registrados em álbuns de estúdio: variações de andamento, solos totalmente improvisados e até pequenas falhas humanas que mostram que, no palco, o Dream Theater é tão humano quanto genial.
Ainda falando nas categorias de bootlegs, poderíamos clasificá-los em circulantes, ou seja: aqueles que estão por aí e são fáceis de serem obtidos, como as postagens no Youtube, e não-circulantes: registros específicos que estão nas mãos de alguns fãs e não são encontrados facilmente, além da existência de alguns grupos fechados e comunidades onde são compartilhados os materiais mais raros.
Para quem é fã, mergulhar nos bootlegs é como abrir um diário de turnê. É possível acompanhar a evolução das músicas, entender escolhas de arranjo e descobrir histórias escondidas nos bastidores. E, para colecionadores, certos discos são verdadeiras lendas urbanas — especialmente aqueles distribuídos em tiragens limitadas ou vendidos apenas em shows.
Conclusão
Mais do que simples gravações, os bootlegs do Dream Theater — sejam oficiais ou não — são cápsulas do tempo. Eles registram noites únicas, cheias de energia, improvisos e momentos que só existiram para quem estava lá… ou para quem tem a sorte de ouvir esses registros hoje.
No fim, cada bootleg é um convite para viajar no tempo e sentir, de perto, a intensidade de uma das maiores bandas de prog metal da história.
EAB
Colecionador de material do DT e apreciador da banda há mais de 25 anos